-MISERÁVEL HOMEM QUE SOU

-MISERÁVEL HOMEM QUE SOU

Pr. Ricardo Barbosa de Souza.

 

Recentemente, num retiro de nossa igreja, estava ouvindo o conselheiro Werner Haeuser, nosso convidado para aquele encontro, que naquela manhã trazia uma meditação sobre Elias e a grande crise pessoal que viveu depois de ter experimentado uma extraordinária vitória. [N. da redação: Werner Haeuser foi o entrevistado de ECLÉSIA na edição do mês passado]. A meditação de Werner enfocava o problema da vitimação, desta tendência comum do ser humano de fazer-se vítima, de sentir-se acuado pelo mundo, de achar que é o único que sofre, que todos estão conspirando contra ele.

 

No meio de sua fala, o conselheiro trouxe uma afirmação que me fez perder um pouco a concentração do seu discurso e ater-me mais a esta frase. Disse ele: "O crescimento pessoal começa quando o culpar o outro termina". Comecei a me lembrar das inúmeras justificativas que tenho criado para me justificar dos meus erros e absolver a mim mesmo das minhas responsabilidades. Lembrei das incontáveis vezes em que culpei o governo para justificar da minha apatia social; das muitas vezes que culpei minha esposa e filhos para me absolver do meu egoísmo e insensibilidade e das vezes que culpei irmãos e irmãs para me poupar do incômodo de reconhecer minha incapacidade de amar e perdoar.

 

Todas as vezes que fiz isso, perdi a oportunidade de crescer, amadurecer e dar um passo a mais na formação do meu caráter. Era apenas mais uma vítima dos erros e pecados dos outros. É uma fórmula comum, bastante usada e que tem lá a sua eficiência. Mas esconde um grande perigo: A paralisia moral.

 

O que está em questão não é esconder a realidade nem fechar os olhos para os problemas políticos, sociais, familiares ou eclesiásticos. O que se propõe é a necessidade de olharmos com mais coragem e honestidade para nós mesmos, de sermos capazes de assumir os próprios erros e enfrentarmos o pecado com humildade e transparência. É aqui que começamos a dar os primeiros passos em direção a uma maturidade saudável.

 

O apóstolo Paulo foi uma destas pessoas que resistiu à tentação da vitimação ao afirmar: "Miserável homem que sou." Ele não culpa os outros pela sua incapacidade de não fazer o bem que sabe que deveria fazer. Ele sabe o que é certo, consegue discernir o bem do mal, sabe o que é melhor para ele e os outros, mas mesmo assim, nem sempre consegue optar por aquilo que é verdadeiro, justo e bom. No entanto, mesmo vivendo este dilema, ele não coloca a culpa dos seus erros e pecados no governo, na igreja, na família ou nos outros. Corajosamente - e responsavelmente -, olha para si e reconhece que o problema está nele, no seu pecado, na sua desobediência. Esta postura abre as portas para um processo de crescimento e transformação.

 

Ao fazer tal afirmação, Paulo não se torna vítima, mas protagonista. A responsabilidade é dele, não dos outros. Esta é a diferença. Paulo não responsabiliza os outros pelas escolhas erradas que fez, pelas oportunidades que deixou escapar, pela formação que deixou de obter, pela influência nociva que sofreu. O cenário principal do seu conflito não era externo, mas interno. A luta entre fazer o bem que conhecia e desejava e se deixar levar pelo mal que não desejava era uma luta da sua alma e Paulo a enfrentou com honestidade e coragem.

 

Conheço muitas pessoas que gostariam de ver menos televisão e dedicar-se mais à leitura, meditação e oração, mas não conseguem; de trabalhar menos e dispor de mais tempo para a família, amigos e lazer, mas sempre sobra mais trabalho do que tempo; de convidar mais os amigos para sair ou jantar em casa, conversar, mas sempre surge algo mais importante e inadiável para fazer. Sabemos que há mais prazer em cultivar relacionamentos honestos e verdadeiros, em conversar antes de julgar, ouvir antes de falar, servir antes de ser servido, ajudar ao invés de reclamar; mas normalmente nossos relacionamentos não são honestos, julgamos o que não conhecemos, buscamos ser servidos e não servir e, freqüentemente, reclamamos e não ajudamos. Sabemos o quanto é bom lembrar do aniversário de algum amigo, mas não lembramos; que devemos ser mais tolerantes com os erros dos outros, mas não somos; que é bom doar algo que nos é caro, mas não doamos. Diante da inércia e dificuldades internas, da própria alma, responsabilizamos o chefe pela falta de tempo, a correria da vida moderna pela aridez da oração, os inúmeros compromissos pela falta de amizade, e por aí vai. Afinal, não somos nós - são os outros.

 

O problema que nos difere de Paulo é que não sabemos reconhecer este grande e grave pecado que nos acompanha sempre. Pessoalmente, nunca ouvi ninguém reconhecer o quanto é miserável e concluir dizendo: "Quem me livrará desta morte?" Achamos mais fácil nos justificar nos erros dos outros do que assumir nosso próprio pecado. C. S. Lewis dizia que as pessoas mais ocupadas são na verdade as mais preguiçosas, porque sempre deixam que outros decidam o que devem fazer. É mais fácil viver assim porque também responsabilizamos os outros por tudo o que deixamos de fazer.

 

Penso que se todos nós, de forma corajosa e honesta, fizéssemos uma declaração como esta de Paulo e reconhecêssemos que somos nós que não fazemos o bem que conhecemos, que optamos pelo mal que não queremos, que o problema está em nós e não nos outros, que precisamos começar por nós um longo caminho de arrependimento e confissão e que necessitamos, desesperadamente, da graça de Deus para libertar nosso corpo deste processo fatal, que vem aniquilando nossos relacionamentos mais íntimos, minando nossas esperanças mais sadias e corrompendo as experiências mais santas e verdadeiras, certamente viveríamos melhor, teríamos famílias mais saudáveis e uma igreja mais madura e acolhedora.

 

"Miserável homem que sou." É duro reconhecer isto, mas este é o ponto de partida para a vida e a comunhão. É o princípio onde aprendemos que a vida começa em Deus e a comunhão é construída numa dependência constante e sincera dele. Fazendo isto, olharemos para nós antes de olhar para os outros. Estenderemos nossas mãos antes de exigir que alguém estenda as suas para nós. Nos doaremos aos outros antes mesmo que se doem a nós. Cresceremos porque evitaremos culpar os outros pelos nossos erros e pecados.

Que Deus tenha misericórdia de nós.