-RAÍZES E ASAS

-RAÍZES E ASAS

Pr. Ricardo Barbosa de Souza.

 

Conta-se que a mãe do reverendo Martin Luther King Jr., falando sobre a educação dos seus filhos, disse que procurou dar a eles "raízes e asas", mostrando a importância dos alicerces para a construção da liberdade e da criatividade. Certamente, a coragem e firmeza que fizeram de Luther King um profeta e mártir na luta contra a segregação racial vieram das raízes profundas de sua fé em Cristo Jesus.

 

Henri Nouwen usa uma bela imagem para ilustrar esta mesma verdade: "A confiança é a base da vida. Nenhum ser humano pode viver sem ela. Os trapezistas nos dão uma bela imagem disso: os voadores têm de confiar em seus 'agarradores'. Os primeiros podem fazer os mais espetaculares saltos duplos, triplos ou quádruplos, mas o que, de fato, faz suas apresentações espetaculares são os agarradores, que estão lá por eles, no lugar certo, na hora certa". Nouwen também reconhece que nossa liberdade e coragem para os grandes saltos e desafios da vida requerem "raízes" ou, na sua imagem, "agarradores".

 

Tenho observado que muitas pessoas hoje convivem com um profundo medo de darem "saltos espetaculares" na vida. Não amam porque têm medo da rejeição, do abandono, da traição. Não lutam nem se arriscam por grandes causas porque têm medo de perder, sofrer, morrer. Não doam porque têm medo de serem exploradas, abusadas, roubadas ou de sofrer alguma privação no futuro. Não mudam porque têm medo dos riscos do desconhecido, do novo, daquilo que não dominam nem controlam. Os relacionamentos não melhoram porque os pais têm medo de perderem seus filhos; os filhos, de perderem a segurança que os pais lhes oferecem; os cônjuges, a estabilidade e o conforto. Temos medo da doença, da morte, do desemprego, da guerra, da violência, da rejeição, do abandono, da solidão. O medo nos paralisa.

 

Vivemos numa geração de poucos mártires. A grande maioria dos cristãos tem buscado na fé uma forma de garantir seu futuro, aumentar sua riqueza, proteger sua saúde e proporcionar o sucesso. Grande parte dos pastores e missionários modernos têm escolhido para campo de trabalho lugares que oferecem menos risco à sua segurança. A maioria dos cristãos foram cooptados pelas regras da cultura e do mercado e procuram ajustar-se e acomodar-se a elas desenvolvendo uma fé cada vez mais secularizada.

 

A razão para isto é a falta de "raízes" ou de "apanhadores". O apóstolo João nos escreve dizendo que "no amor não existe medo". Para ele, o solo no qual a raiz da vida é plantada é o amor. A palavra amor tem duas qualidades óbvias no pensamento de João: Primeiro ele afirma que o amor tem sua origem em Deus: "Nós amamos porque ele nos amou primeiro". Segundo, que é um relacionamento que envolve outras pessoas - "Amados, se Deus nos amou, devemos amar uns aos outros". Para João, o amor não é um sentimento abstrato, mas a forma como respondemos ao amor de Deus em relação às pessoas.

 

É a certeza de que somos amados por Deus que nos dá a coragem para dar novos passos, arriscar novos projetos, amar mais extravagantemente. O apóstolo Paulo reconhecia que era o amor de Cristo que o constrangia a ser mais ousado. Luther King sabia dos riscos que corria. As ameaças de morte eram freqüentes. Contudo, sua mãe lhe havia dado o alicerce adequado para crer que havia algo maior e melhor aguardando por ele, algo que somente a fé no amor de Deus em Cristo poderia lhe revelar. Luther King cria no amor de Deus que o constrangia e o levava a lutar contra a violência, a pregar a paz, a proclamar e profetizar contra a injustiça e corrupção, como também cria que este mesmo amor era a razão de sua esperança, de uma glória futura, da certeza de que Deus não apenas o impulsionava, como também haveria de segurá-lo.

 

Se os pais cressem mais no amor de Deus, certamente seriam menos ansiosos e possessivos em relação ao futuro dos seus filhos. Se cônjuges soubessem o quanto são amados por Deus, se dariam mais generosamente e mais livremente um ao outro. Se o amor de Deus nos constrangesse como constrangeu Paulo, seríamos mais ousados, correríamos mais riscos, falaríamos com mais intrepidez, oraríamos com mais fervor e devoção. Se o amor de Deus nos envolvesse ao ponto de sermos absorvidos por ele, renunciaríamos às nossas ambições mesquinhas e às nossas inseguranças infundadas, e nos doaríamos sem reservas ao próximo para servi-lo e abençoá-lo. É a certeza de que somos amados que nos liberta da possessividade, da necessidade de controle, do desejo de manipular e do medo que paralisa.

 

A imagem do trapezista de Nouwen deve nos ajudar a lembrar das palavras de Jesus quando disse: "Estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos". Ele é o grande "apanhador" que nos convida a dar os saltos duplos, triplos ou quádruplos. Jesus subiu ao Calvário com esta certeza. Em meio à agonia de sua morte, ele ora: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Sua vida nunca esteve nas mãos de Judas, Pilatos, sacerdotes ou do povo que pedia sua execução. Sua vida sempre esteve nas mão do Pai que lhe havia dito no batismo: "Este é meu Filho amado em quem tenho todo o meu prazer".

 

A liberdade para subir ao Calvário, para amar seu inimigos, para abençoar os que lhe amaldiçoaram, para cuidar de prostitutas e ladrões ou para denunciar a arrogância e ambição de ricos e poderosos estava nas raízes profundas das palavras do Jordão. O que a Igreja e os cristãos mais precisam hoje não é de mais "experiências espirituais" ou cultos mais dinâmicos e modernos. Precisamos de uma qualidade de amor e de relacionamento com Deus que nos leve a romper com nossos medos e dar os saltos que o mundo espera, para que este mesmo amor que nos constrange seja compreendido por um mundo que ainda prefere a violência como forma de resolver seus conflitos.